Cirurgião explica lesão que levou tenista britânico a anunciar aposentadoria

O tenista britânico Andy Murray, um dos melhores atletas do esporte segundo a Associação de Tenistas Profissionais (ATP), com 45 títulos, entre eles duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos, surpreendeu o mundo na última semana ao anunciar sua aposentadoria aos 31 anos.

O anúncio foi dado durante coletiva com a imprensa, no media day do primeiro Grand Slam do ano, o Australian Open. Murray disse que as dores frequentes e intensas no quadril, que o incomodam há 20 meses, são o motivo para a aposentadoria precoce.

“Estou lutando a muito tempo. Não tenho certeza se posso suportar a dor por mais quatro ou cinco meses”, disse. “Praticamente fiz tudo o que pude para tentar melhorar meu quadril e isso não ajudou muito. Acho que há uma chance de que o Australian Open seja meu último torneio”, finalizou Murray.

Histórico – Murray possui uma lesão no quadril direito que foi acompanhada, desde 2007, com tratamento conservador, focado em fortalecimento muscular e medicações. O problema, no entanto, foi se agravando com o passar do tempo e o atleta foi submetido a uma artroscopia do quadril no último ano.

Segundo o médico ortopedista especialista em cirurgia do quadril, Dr. Thiago Fuchs, Murray sofre do mesmo problema que acometeu o ex-tenista brasileiro Gustavo Kuerten, o Guga, há alguns anos, e que também o levou para fora das quadras: o desgaste na cartilagem do quadril causado pelo impacto femoroacetabular (IFA).

“Sabe-se que ele tinha impacto femoroacetabular – uma deformidade anatômica em que ocorre um contato anormal dos ossos do quadril, principalmente nos movimentos de flexão e rotação. Esse contato anormal acaba gerando uma lesão de labrum e na cartilagem articular”, explica Fuchs.

 

Ainda segundo Thiago Fuchs, a artroscopia do quadril do tenista britânico não teve o resultado esperado devido ao desgaste avançado na cartilagem articular, comum em atletas de alto rendimento, e a demora em realizar o procedimento cirúrgico.

“O resultado positivo da cirurgia preservadora está relacionada com a condição da cartilagem articular, que possui capacidade de regeneração praticamente nulo. A cartilagem articular não tem vascularização e se não recebe sangue, ela não consegue se regenerar adequadamente”, explica. “Pacientes com lesão de labrum ou impacto femoroacetabular com cartilagem boa e preservada têm excelentes resultados com o tratamento cirúrgico”, garante o especialista, frisando que o sucesso da cirurgia está relacionado também com o diagnóstico e tratamento adequado precocemente.

Australian Open

Durante a manhã desta segunda-feira (14), o atleta fez a alegria da torcida presente na Melbourne Arena, mas acabou derrotado pelo espanhol Roberto Bautista Agut por por 6/4, 6/4, 6/7(5), 6/7(4) e 6/2 após 4h09 de partida, e encerrou sua participação no torneio.

Artroplastia de Guga

Aposentado em 2008, Guga, que já havia feito dois procedimentos no quadril, o primeiro em fevereiro de 2002 e a outro em setembro de 2004, recorreu a uma artroplastia – uma prótese – no quadril direito para solucionar a lesão e as dores que o acompanhavam desde 2001.

Em entrevista ao UOL, o maior tenista brasileiro da história, admitiu a semelhança dos casos e disse que acredita que o britânico tem melhores chances de recuperação com os procedimentos atuais e mais modernos.